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NOVEMBRADA – 29 anos – Crônica de Raul Caldas Filho

Submitted by Amilton Alexandre on sexta-feira, 28 novembro 2008Sem comentário


A BATALHA DO CALÇADÃO (OU DO “SENADINHO”)*
Raul Caldas Filho

Novembro de 1979.

O último general-presidente do regime militar, João Baptista Figueiredo, promovia a abertura política, ou a distensão lenta e gradual, “gentilmente” concedida aos brasileiros pelo seu antecessor, o prussiano general Ernesto Geisel. Para isso, tentava-se popularizar a imagem de Figueiredo através de golpes de marketing bolados pelo seu secretário de Comunicação Social, Said Farhat, e pelo publicitário Mauro Salles. E uma das formas encontradas para tornar o ex-carrancudo chefe do SNI mais simpático à população foi levá-lo aos pontos mais movimentados de diversas capitais brasileiras.

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Foi anunciada a vinda do presidente a Florianópolis. O pretexto para a visita seria a concretização de duas velhas promessas do Governo Federal, que continuariam não cumpridas: a conclusão da BR 282 e a construção da terceira ponte Ilha-Continente, na capital catarinense. Algum “iluminado” comunicólogo do staff presidencial sugeriu que se desse um pouco mais de “molho” a esses atos (mera assinatura de papéis) e foi programada a inauguração de um busto de Floriano Peixoto na Praça XV de Novembro. A primeira “bola fora”. Como sabe qualquer pessoa bem-informada sobre os hábitos e costumes da Ilha, o Marechal de Ferro não é persona mui grata a seus habitantes, apesar de ter dado o nome à cidade (mais uma represália, do que uma homenagem).

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O então governador Jorge Bornhausen, adepto de grandes festanças cívicas ao estilo blumenauense, com muita comilança e muita cervejada, decidiu recepcionar o presidente com uma churrascada monstro, quando seriam abatidas dezenas de bois de primeira linha. O que também não agradou a população, às voltas (como sempre) com baixos salários, alto custo de vida e uma inflação que não parava de crescer.

Outro fato acirrou ainda mais os ânimos: na calada da noite (como de hábito), véspera da viagem presidencial, foi divulgado um novo e violento aumento dos combustíveis. O tarifão de 30% irritou todos os usuários e provocou a incontida ira dos motoristas de táxi da capital. O cenário para a “batalha” começava a se delinear.

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Dia 30 de novembro, uma sexta-feira. Já nas primeiras horas da manhã, caravanas de ônibus começaram a chegar ao centro, trazendo partidários do PDS (o então partido oficial) do interior do estado e municípios vizinhos. Por volta das 10 horas da manhã já havia uma consistente aglomeração em frente ao suntuoso Palácio Rosado, hoje Cruz e Sousa, sede na época do Poder Executivo Catarinense, onde o presidente seria recepcionado. Mas, além dos governistas, despontavam, aqui e ali, grupos de estudantes opositores do regime, com faixas e cartazes exigindo o fim da ditadura.

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Uma reluzente fileira de veículos oficiais indicou a chegada do presidente e sua “luzidia” comitiva, como diriam os locutores da era do rádio. Acompanhado por Jorge Bornhausen e um numeroso séquito, Figueiredo subiu as escadarias do Palácio e dirigiu-se ao amplo salão frontal no 1º andar. O local encontrava-se apinhado de autoridades, políticos, jornalistas, “aspones”e funcionários novidadeiros. Por voltas das 11 horas teve início a solenidade. O calor era tremendo. Quando começaram os discursos, todos os janelões, junto às sacadas, foram abertos e o alarido dos manifestantes passou a ser percebido. No momento em que Bornhausen falava, os apupos e gritos aumentaram de intensidade e suas palavras já quase não eram ouvidas. Entre as autoridades, uma sensação de perplexidade e desconforto.

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Logo em seguida, outra multidão, na maioria formada por estudantes, veio em passeata e juntou-se à massa que se encontrava na frente do Palácio. O som das vaias, assovios e gritos tornou-se ensurdecedor e na sede do Governo ninguém ouvia mais ninguém. Era o protesto anônimo contra os descaminhos antipopulares do regime militar.

De repente, Figueiredo, com a sua costumeira impulsividade, encaminhou-se até a sacada central, para surpresa do governador e de outras autoridades que o seguiram. Ao mostrar-se para a multidão provocou uma vaia ainda mais estrepitosa. Ele fez, então, um gesto com a mão direita, querendo dizer (com uma sutileza de cavalaria) que o número de manifestantes não passava de um punhado de pessoas. Para muitos, porém, o gesto presidencial assemelhou-se ao OK dos norte-americanos, aquele que une o indicador ao polegar formando um círculo. E os xingamentos ficaram pesados, não faltando referências à sua progenitora.

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Furioso, Figueiredo voltou-se para Bornhausen, que estava a seu lado e declarou, peremptório:

- Vou enfrentá-los no braço!

E deu meia volta, demonstrando que estava mesmo disposto a responder as ofensas “na marra”, mandando às favas a dignidade do cargo. Foi seguido pelo atônito governador, que ainda tentou impedi-lo de tomar tão drástica atitude:

- Presidente, não faça isto, não perca o controle!

Mas Figueiredo desvencilhou-se com um safanão e desceu rapidamente as escadas, acompanhado por meia dúzia de aturdidos seguranças e auxiliares. Ninguém entendia direito o que estava acontecendo.

Já na rua, investiu, à maneira de um desvairado e bufante centauro, contra o primeiro amontoamento hostil que viu pela frente. Foi contido a tempo pelos seguranças.

Depois, ainda exaltado, fez uma pequena preleção aos que o rodeavam. E asseverou, incisivo:

- Minha mãe não está em pauta!

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Retornou ao Palácio e, ainda soltando fumaça pelas narinas, deu continuidade aos atos oficiais estabelecidos. Faltava apenas a inauguração do busto de Floriano. Mas, numa decisção completamente insensata (em vista das circunstâncias), o presidente insistiu em manter o esquema de”popularização” orquestrado por Farhat e seus comunicólogos. E foi levado, juntamente com ministros e outros graduados membros do seu Governo, ao “Senadinho” (ou Ponto Chic). Lá deveria distribuir abraços e apertos de mão. A idéia revelou-se desastrosa.

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Quando a troupe presidencial chegou ao local viu-se prensada por uma sólida multidão que, como uma enchente, afluí­a por todos os lados. A massa humana que se acotovela-se por ali era, na verdade, composta por trás diferentes blocos: a turma que apoiava o presidente, os estudantes e esquerdistas de várias facções e os anônimos (ou “populares”), frequentadores habituais da rua principal, entre os quais se encontravam infiltrados muitos motoristas de táxi. Dava para perceber que os governistas estavam em desvantagem. Configurava-se o cenário para a “batalha”.

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Figueiredo ainda tentou tomar um cafezinho, envolto num tremendo empurra-empurra. Só conseguiu dar um gole. Os seguranças estavam mais desnorteados do que um plantel de bois rumo ao abate. Mesmo assim a comitiva presidencial ainda tentou chegar à Praça XV, para o ato em homenagem a Floriano, em meio a mais vaias e xingamentos. A certa altura um “popular” lançou nova ofensa a Figueiredo. Este, agora completamente fora de si, investiu a socos contra o sujeito. A partir desse momento ninguém mais segurou a “peteca”. A confusão generalizou-se e o presidente e seus asseclas literalmente engalfinharam-se com a massa irada. Estava deflagrada a “batalha”.

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A escaramuça espalhou-se por todo o calçadão e diversos focos de pancadaria explodiram aqui e ali. O ministro das Minas e Energia, Cesar Cals, o signatário do aumento dos combustíveis, foi, juntamente com o seu bem provido par de orelhas, um dos alvos principais dos agressivos taxistas. Mas, homem encorpado, também distribuiu alguns sopapos. Já o ministro-chefe da Casa Militar, Danilo Venturini, acabou estatelado com guizos, alamares e tudo, no interior das lojas Arapuã. No meio da refrega, alguns seguranças ainda conseguiram tirar Figueiredo do tumulto e enfiá-lo, juntamente com Bornhausen, num carro oficial. Os dois foram, então, conduzidos ao local onde seria realizada a churrascada de confraternização. Tempos depois, Jorge Bornhausen confessaria numa entrevista que aqueles foram os quinze minutos mais terríveis de sua vida. O presidente não pronunciou uma única palavra durante quase todo o trajeto. Só bufava. A certa altura, porém, encarou o governador e, dedo em riste, ameaçou:

- O senhor será responsabilizado por isto, se não encontrar os culpados.

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Chegando ao festivo pavilhão, engalanado com bandeirolas e luzes multicoloridas, e tendo como atração especial a presença de atraentes recepcionistas, Figueiredo foi vivamente aplaudido pelos inúmeros “convivas” (e penetras) que compareceram à “boca livre”governamental com pantagruélico apetite. Mesmo assim, ele continuou com a cara amarrada e a disposição azeda. E, para desconforto do governador, não demonstrou o menor empolgamento com as carnes finas que lhe foram oferecidas.

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Após o almoço inventaram, à última hora, de levar o presidente e comitiva à ACARESC, para ver “in loco” o funcionamento de um biodigestor alimentado com excremento de animais, projeto desenvolvido pelo Governo Estadual para produzir energia elétrica a baixo custo. Com visível má vontade, Figueiredo concordou em comparecer à quele que seria o derradeiro compromisso na Ilha dos ocasos e casos (como ele estava comprovando “ao vivo”) raros.

Pois quando acionaram o aparelho espirraram excrementos para todos os lados, atingindo os rostos e roupas das autoridades. Figueiredo fechou a cara, deu meia volta e ordenou para o seu ajudante de ordens:

- Para o aeroporto, já!

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Encerrou-se, desta forma, não exatamente com chave de ouro, a atribulada visita do presidente João Baptista Figueiredo a Florianópolis em novembro de 1979, episódio também conhecido como “Novembrada”, ou “A Batalha do Calçadão”, ou, ainda, “A Batalha do Senadinho”, episódio, aliás, que ganhou manchetes nacionais e internacionais e foi comentado até na China.

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P.S. – 1 – O busto em homenagem a Floriano Peixoto nem chegou a ser inaugurado e foi destruído em praça pública mesmo.

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P.S. – 2 – Nunca mais se ouviu falar em “popularização” da imagem de Figueiredo. E Said Farhat não “emplacou” mais dois meses no cargo de Secretário de Comunicação Social.

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P.S.- 3 – E, para não dizer que ninguém chegou a ser punido pelos tumultuados incidentes, sete estudantes universitários foram presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional: Lígia Giovanella, Adolfo Luís Dias, Rosângela de Souza, Amilton Alexandre, Geraldo Barbosa, Marise Lippel e Newton Dias Vasconcelos. Todos acabaram absolvidos, por falta de provas, pela Justiça Militar em Curitiba, dois anos depois.

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P.S.- 4 – Há quem diga que o regime ditatorial militar instalado no Brasil a partir de 1º de abril de 1964 começou a ruir definitivamente após a tão falada “batalha”.

*Do livro “Oh! Que Delícia de Ilha” – Editoras Paralelo 27 e Lunardelli, 5ª edição.

HOJE NA KIBELÂNDIA – a partir das 18:00 horas entrega do Troféu Político Picareta da Ilha e de Santa Catarina
29 anos da Novembrada

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